O Trabalho
informal em Belém: os dois lados da moeda
Em homenagem ao dia do trabalhador (e para os desempregados que dão o seu "jeitinho brasileiro")

O sociólogo Válber de Almeida Pires apresentou como dissertação no Núcleo de
Altos Estudos Amazônicos da UFPA (em Belém), os dados
do IBGE e do Anuário Estatístico do Município estudos que indicaram uma realidade mais crítica no mercado de trabalho belenense. Mesmo com o crescimento da economia, acima de 10%, registrou-se um
aumento do trabalho informal e a manutenção da taxa de
desemprego em 12%, superior à média nacional (8,1%). O
trabalho informal não pára de crescer nas ruas da
cidade. Onde há fluxo, os camelôs vão se
estabelecendo.”
Válber Pires constatou que “a situação desses trabalhadores do
setor informal é de grande desamparo. Paralelamente à
falta de qualificação técnica para exercício
de outras funções na economia, os camelôs são
desprovidos de capital social, recaindo sobre eles visões
negativas de cunho criminalizante, discriminante e segregacionista.
Responsabilizados pelo caos urbano, pela violência, por roubos
no centro comercial, os camelôs são tomados como “bode
expiatório” até para legitimar a inoperância do
Estado e da própria sociedade”, afirma.
As novas exigências
para ocupar uma vaga no mercado de trabalho formal; a renda mensal
muitas vezes maior do que o trabalho de carteira assinada;
independência financeira; a quantidade de consumidores para
produtos diversos como equipamentos eletrônicos, alimentos,
lanches, entre outros, são os fatores predominantes que fazem
muitos paraenses optarem por esse ramo.
O paraense José
Carlos Souto e Silva, formado em administração,
publicou num artigo que “o trabalho informal, atividade essa que
cresce no Brasil de forma acelerada, é realizado por pessoas
que, por um motivo ou outro, não conseguiram ingressar no
mercado de trabalho e, a partir de então, adquiriram novas
visões sobre o mundo. Metas são estabelecidas nas suas
vidas profissionais para que sejam alcançadas em longo prazo,
pelo menos. Montar o próprio negócio é a saída
para que essas pessoas possam ter ocupação no que se
refere às atividades profissionais.”
O grande problema é
que “o trabalhador informal não gera receitas para o Estado,
que por sua vez deixa de captar receitas e recursos para a manutenção
das atividades do governo; porém garante os milhares ou até
mesmo milhões de pessoas alguma forma de ocupação 'mercantil', o que não é ilegal”, disse José Carlos.
Numa entrevista com
sete vendedores ambulantes da Região Metropolitana de Belém,
pelo menos cinco
alegaram o fato da renda mensal proporcionada pela atividade
informal ser mais em conta do que a do trabalho de carteira assinada.
“Eu ganho muito mais aqui (numa mine banca improvisada sob uma
bicicleta) na venda de lanches na beira da pista do que numa empresa,
onde a gente é explorado e fica sendo humilhado pelo patrão”,
disse o Antônio Silva, 46, vendedor autônomo.
“Se
eu não estivesse aqui estaria roubando gente por aí. Não
quis estudar, não tenho parente rico, o jeito é vender
nos coletivos...tem gente que pede, eu tenho vergonha, prefiro
vender”, confessou Daniel Couto Martins, 19, vendedor de bombons em
coletivos urbanos na região metropolitana de Belém.
Confira
a entrevista com a socióloga Arlene Nazaré, professora
da Universidade da Amazônia (Unama):
Senhorita Matos: Além
da falta de oportunidade e da formação para pleitear
uma vaga no mercado de trabalho formal, por que o trabalho informal
cresce a cada dia?
Profa. Arlene Nazaré: A
formação, pelo menos a nível médio
para se conseguir um emprego, é importante, o que faz com que
uma pessoa deva estudar, já que tem por objetivo ou
necessidade de ter um emprego para se sustentar ou ajudar no sustento
da família. Porém isto esbarra em algumas questões
como: interesse pelo estudo, qualidade do ensino, escolas voltadas
para um ensino técnico de qualidade, políticas públicas
voltadas para uma educação de qualidade e visando as
transformações do mercado, etc. Quanto à questão
de falta de oportunidade, isto pode ser interpretado de diferentes
maneiras que podem envolver desde o interesse da própria
pessoa que procura emprego, até mesmo a tal chamada
oportunidade. Acredito que existem oportunidades, mas existem também
exigências do mercado que você tem que adotar ou se
adaptar.
Senhorita Matos: Qual
a importância social e cultural do trabalho na sociedade
brasileira?
Profa. Arlene Nazaré: A
importância social é a de sobrevivência, de se
manter pelo menos nas necessidades mais básicas do ser humano,
e a sociedade de hoje é muito exigente e todos aqueles que
estão à margem, sofrem as consequencias. Não são
bolsas do governo federal que vão resolver o problema, mas
políticas públicas voltadas para a cidadania e justiça
social. A importância cultural é de conhecimento,
informação, qualificação, respeito pelo
ser humano, valorização em todos os aspectos, pois
fazemos parte de uma nação que se diz em
desenvolvimento e democrática.
Senhorita Matos: O
brasileiro tem fama de dar um “jeitinho” em tudo, de ser
“malandro”, até mesmo na hora de trabalhar, que reflexos
isso pode trazer pra economia local?
Profa. Arlene Nazaré: Os
reflexos são grandes em termos econômicos e sociais.
Quem tem um vinculo empregatício com empresas ou instituições
paga impostos que já são altos, enquanto que outros que
não tem não pagam. E aí? Quem responde por isso?
A sociedade já demonstra que não é justa pela
falta de atuação, o poder público idem. Todas as
pessoas responsáveis se sentem ultrajadas, ofendidas com uma
política inoperante. Acredito que o jeitinho pode ser dado sem
prejudicar aos outros, e a malandragem que prejudica totalmente
deveria ser punida, desculpe se estou sendo um pouco positivista, mas
é o que eu penso.
Entrevista com Dilson Pimentel, repórter do jornal O
Liberal, formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA)
Senhorita Matos: Segundo
pesquisas do IBGE na área de “Economia Informal Urbana”,
em 1997 tinham mais de 13 milhões de trabalhadores informais
nos centros urbanos brasileiros. Agora as estatísticas
comprovam que tem muito mais. Você já comprou algum
produto de vendedores ambulantes?
Dilson Pimentel: Sim.
Já comprei.
Senhorita Matos: Em
sua opinião o trabalho informal prejudica a economia local?
Dilson Pimentel: Sem
emprego, as pessoas vão parar no mercado informal. A
princípio, é um aspecto positivo, já que, em
tese, todos estão ganhando a vida honestamente. Mas, na
prática, todos perdem. Perdem os trabalhadores, que não
têm vínculo empregatício e, portanto, nenhuma
proteção trabalhista. Perde o município, que
deixa de arrecadar seus impostos pela atividade exercida pelos
ambulantes.
E perde a população. Em um primeiro momento, as pessoas acreditam que estão comprando produtos com preços mais acessíveis. Mas, depois, acabam sendo prejudicadas. Primeiro, porque essas mercadorias não têm garantia, não se sabendo, portanto, sua procedência, sua origem. Segundo, porque esses trabalhadores ocupam, de forma desordenada, as ruas, impedindo o ir e vir das pessoas.
E perde a população. Em um primeiro momento, as pessoas acreditam que estão comprando produtos com preços mais acessíveis. Mas, depois, acabam sendo prejudicadas. Primeiro, porque essas mercadorias não têm garantia, não se sabendo, portanto, sua procedência, sua origem. Segundo, porque esses trabalhadores ocupam, de forma desordenada, as ruas, impedindo o ir e vir das pessoas.
Senhorita Matos: Você
consegue perceber que a maioria dos vendedores ambulantes, sobretudo
os que atuam em coletivos, são indivíduos recém
saídos do mundo do crime?
Dilson Pimentel: Não,
não percebo isso. E, até onde sei, não há
um levantamento apontado esse fato. Sei que esses trabalhadores que
vendem bombons em ônibus urbanos costumam alegar que são
ex-presidiários. Não sei, realmente, até que
ponto essa informação é verdadeira. Ou se agem
assim apenas para intimidar os passageiros e, assim, vender seus
produtos.
Geralmente, aqueles que estão realmente envolvidos no mundo do crime dificilmente vão deixar de praticar suas atividades criminosas para ganhar a vida honestamente. Acho que, em sua maioria, os ambulantes são mesmo aqueles trabalhadores sem emprego ou com baixa escolaridade, que têm dificuldades em conseguir uma colocação no mercado formal.
Geralmente, aqueles que estão realmente envolvidos no mundo do crime dificilmente vão deixar de praticar suas atividades criminosas para ganhar a vida honestamente. Acho que, em sua maioria, os ambulantes são mesmo aqueles trabalhadores sem emprego ou com baixa escolaridade, que têm dificuldades em conseguir uma colocação no mercado formal.
Senhorita Matos: Tendo
em vista esse fato, de muitos ex viciados em narcóticos e
infratores estarem trabalhando informalmente, não seria um
ponto positivo?
Dilson Pimentel: Se,
de fato, pessoas que já tiveram problemas com a Polícia,
ou com o tráfico de drogas, estiverem trabalhando no mercado
informal e, se realmente, elas, no exercício dessa atividade,
não voltaram a praticar novos delitos, aí, sim, seria
algo extremamente produtivo. Seria a demonstração de
que essas pessoas estão aptas a voltar a conviver em
sociedade, e de forma honesta.
E
a 3º e última entrevista com o economista Joel Carlos
Pacheco Brito, formado também pela UFPA em economia.
Senhorita Matos: Pesquisas
feitas com alguns vendedores que atuam no trabalho informal, na
cidade de Belém,indicam que 70% dos trabalhadores deste ramo
optam por trabalhar por conta própria. Como explicar esse
fenômeno?
Dilson Pimentel: Com
o impacto da economia informal em nosso município, ou em
qualquer outro lugar, observa-se que acontece uma ocupação
desordenada nas vias públicas, com poluição
sonora e visual, além do não recolhimento de tributos
importantes para o Município e para o Estado, a exemplo o
ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Prestação de Serviços. Toda essa conjuntura
da cidade dificulta atividades importantes como o Turismo, além
de ser um rival do comércio formal, na disputa por vendas e
maiores lucros. Acredito que políticas públicas
eficientes para ambas as partes (trabalho formal e informal) são
vitais para a dinâmica e crescimento da economia local.
Senhorita Matos: Quais
são os reflexos negativos e positivos do trabalho
informal na economia local?
Dilson Pimentel: O
trabalho informal em alguns aspectos é mais vantajoso que uma
atividade amparada por todos os direitos trabalhistas (trabalho
formal). A informalidade possui uma forma flexível ao agente
desta atividade, assim como, não está
vulnerável a sofrer os encargos tributários da
atividade formal vigente, sendo ela convencional ou não. Vai
outro fator relevante na questão trabalhada e que grande
número das vagas no trabalho formal, não são
preenchidas por causa da falta de pré-quisito exigido
para a habilitação das funções (o
trabalhador não está qualificado), acabando por inchar
o mercado informal. Vale ressaltar ainda, que os baixos
salários associados a uma árdua jornada de
trabalho, acabou por contribuir para a estratificação.
Senhorita Matos: Quais
projetos ou políticas públicas deveriam ser feitas para
esses trabalhadores?
Dilson Pimentel: Deve
levar em consideração fatores importantes que
contribuem para a resistência desse novo grupo na área
do trabalho informal. Será que ela tem as mesmas demandas em
seus produtos, para que a receita seja igual ou superior ao período
passado? Se não ea resistirá às imposições
municipais e continuará a oferecer o lucro. Tivemos
exemplos de projetos de remanejo de trabalhadores informais que não
deram certo.
SOLUÇÕES:
Diminuição
da burocracia, e, sobretudo dos impostos, são sugestões
de especialistas e empresários preocupados com a grande
informalidade na economia brasileira. “A causa são os gastos
públicos. Tem que reduzir os gastos públicos. Eliminar
desperdício público pra criar condições
de se reduzir a carga tributária. E, sem dúvida
nenhuma, a redução da carga tributária será
o maior combate à informalidade”, declarou em entrevista ao
jornal da Globo o presidente da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.
Prometo que tentarei fazer postagens mais curtas ;) mas essa aí não dá né gente?! Dia do trabalhador, é uma especial. Bom, aguardem as próximas. Beijos!
Att, Senhorita Matos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário